Mistério…

Sinto minha pele quente do sol, é um ardido gostoso, necessário para lembrar que tenho pele. E embaixo da pele ossos, ossos que me contam meu passado, esse osso do meu ombro herdei do meu pai e esse do meu peito, de minha avó. E me pego viajando no espaço e no tempo, sendo mil pessoas em uma só. Cada célula do meu corpo guarda memórias de outros corpos, outras almas, meu corpo guarda lembranças do Japão, da África, de Portugal, de onde mais? Por onde meu corpo esteve? Dizem que até judeu já foi. E pode ser que foi índio também. Índio selvagem, correndo com meus pés nas matas, mergulhando nos rios, nos mares, livre, meu pé já foi livre. E minhas mãos e meus dedos, talvez já tocaram muito piano e por isso tamborilam frustrados. Ou desenharam muitos kanjis? E os meus olhos? O que já viram? Que lágrimas derramaram? E meu coração, já bateu por quem e já parou quantas vezes? E a minha voz? Já ecoou em quais amplidões ou morreu em quais paredes? E meu cérebro? Que pensamentos já produziu? E as ínfimas partículas, pó de que estrela? Em qual constelação? Meu corpo, minha pele, meus ossos, eu mesma mistério…

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