Chuva e saudades

No escuro a chuva vira som e me dá saudades de tudo que foi, que não foi, que vai ser, que nunca será. Enquanto os pernilongos me devoram e me mandam de volta pra um beliche, com cheiro de macela, madeira com furos de cupim, rabiscos, meia luz, sombra de palmeira, mangueira e chapéu de sol na cortina estampada de flores, desenhando monstros e fantasmas, que me tiravam o sono de menina. Rádio sintonizando estações em outras frequências, em outras línguas, ruído e chiado estranho, mistério no mar à noite, cor de petróleo com luzes no horizonte, confundindo com as estrelas que piscam. Luz fraca na rua de terra, solidão, anjo, bosque, estrela d’alva, barulho de roda de bicicleta, portão de ferro, vento nas folhas, grilo e cigarra cantando. Sapo, lagartixa, limo no muro, planta que dorme, volta no quarteirão, brinco de princesa, goiaba, girino, perereca, barata voadora, taco de madeira, móvel velho, rede, balanço… saudades… saudades… saudades… chuva… chuva… saudades…

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