Caminhando em Quebéc

Às vezes é solitário viver.

– Caetano Veloso

Dia longo, trabalhei das 9h às 17h com uma pausa de duas horas para o almoço. Trabalho encerrado, andei das 17h50 às 22h, quatro horas e dez minutos. Quantos passos eu dei? Não sei. Comecei no parque Plaines d’Abrahan.

Fui andando sem destino certo em direção ao rio. Encontrei uma escadaria de madeira e resolvi descer. Quanto mais descia, mais degraus apareciam, até o ponto em que voltar se tornaria uma tarefa difícil. Resolvi continuar.

Cheguei numa longa avenida com casas à esquerda ao longo da encosta e o rio à direita. Sabia que se continuasse chegaria à cidade velha, então segui na ciclovia, atenta para não atrapalhar os ciclistas. E ciclistas de todas as idades passaram por mim. Aqui as pessoas vivem. Carros caros, conversíveis passam por mim. Um sentimento estranho, um pudor. Como é que essas pessoas andam por aí ostentando extrema riqueza assim tão sem culpa?? Sinto que não pertenço a esse lugar e começo a acelerar o passo que antes era lento e contemplativo. Finalmente chego à cidade velha, ao pedaço turístico, fechado para carros. Por sorte, poucas pessoas por enquanto. A maioria das lojas fechadas. Essa área é tão pitoresca, mas sem vida. Tudo tão perfeito que parece um cenário artificial. As ruas de granito, não são o pé-de-moleque original, as pedras são perfeitamente assentadas para os turistas não escorregarem. Mesmo assim, me agrada a arquitetura histórica. Ando a esmo a procura de um café para sentar e tentar me aquecer, pois o vento frio começa a piorar, sem o quentinho do sol que vai se pondo. Tomei um latte d’érable, ou um café com leite e xarope daquela árvore símbolo do Canadá, acompanhado de uma fatia de bolo de chocolate. Energia renovada, caminhei mais um pouco até que me deparei com a sede do Ghost Tours, um passeio a pé com um guia vestido à caráter, que vai contando casos de fantasmas e mortes ocorridos ao longo da história da cidade. Como faltavam poucos minutos para o passeio começar, resolvi fazer.

Foi interessante, andei por ruas que ainda não havia explorado e aprendi coisas novas sobre a cidade. Voltei pra casa, reconhecendo lugares por onde passei no ano passado, sentindo o frio no rosto e um pouco de solidão.

Cartomante

Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face pra quem quer que seja
Nos dias de hoje esteja tranqüilo
Haja o que houver pense nos seus filhos

Não ande nos bares, esqueça os amigos
Não pare nas praças, não corra perigo
Não fale do medo que temos da vida
Não ponha o dedo na nossa ferida

Nos dias de hoje não lhes dê motivo
Porque na verdade eu te quero vivo
Tenha paciência, Deus está contigo
Deus está conosco até o pescoço

Já está escrito, já está previsto
Por todas as videntes, pelas cartomantes
Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos búzios e nas profecias

Cai o rei de Espadas
Cai o rei de Ouros
Cai o rei de Paus
Cai não fica nada.

Apresentação

Aqui está minha vida – esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz – esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor – este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança – este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Cecília Meireles

Cansada.

Triste.

Nada.

Vazio.

Saudades.

Sinto.

Escondo.

Sofro.

Dói.

Muito.

Acabar.

Logo.

Quero.

Nunca.

Mais.

Voltar.

Coragem.

É o que ela quer.

É o que eu não tenho.

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Um brinde à vida e à lua.