Apresentação

Aqui está minha vida – esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz – esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor – este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança – este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

Cecília Meireles

Cansada.

Triste.

Nada.

Vazio.

Saudades.

Sinto.

Escondo.

Sofro.

Dói.

Muito.

Acabar.

Logo.

Quero.

Nunca.

Mais.

Voltar.

Coragem.

É o que ela quer.

É o que eu não tenho.

.

.

Um brinde à vida e à lua.

Ditchan

Isamu Kitahara, ou ditchan. Demorei para saber que ditchan não era o nome do meu vovô japonês, mas na verdade é como se fala avô em japonês. O ditchan se chamava Isamu Kitahara, ou como ele preferiu ser chamado a vida toda, Nelson Kitahara.

Eu não sei quase nada sobre ele. Sei que era querido, que veio sozinho do Japão quando era um mocinho de 17 anos, nunca mais voltou e nunca mais viu os pais ou os irmãos. Gostava de basebol, nas fotos é o único de terno. Comeu num penico pensando que era uma cuia. Foi taxista, motorista de carro particular. Trabalhou na Howa. Foi preso no DOPS durante a Segunda Guerra, onde ficou dois anos. Teve todos seus bens confiscados. Seu melhor amigo era um sapateiro, negro, violonista chamado Acácio. Morreu de um derrame quando eu tinha três anos. Lembro que ele vinha em casa visitar a gente e nos levava até no boteco pra comprar chocolate de moedinha da Lacta, aquele que vinha num tubinho vermelho laminado ou chocolate Pan de guarda-chuva. Também podia ser os cigarrinhos. Só lembro das mãos grandes segurando as minhas bem pequenininhas e de um sentimento de alegria ao saber que ele tinha chegado.

Chuva e saudades

No escuro a chuva vira som e me dá saudades de tudo que foi, que não foi, que vai ser, que nunca será. Enquanto os pernilongos me devoram e me mandam de volta pra um beliche, com cheiro de macela, madeira com furos de cupim, rabiscos, meia luz, sombra de palmeira, mangueira e chapéu de sol na cortina estampada de flores, desenhando monstros e fantasmas, que me tiravam o sono de menina. Rádio sintonizando estações em outras frequências, em outras línguas, ruído e chiado estranho, mistério no mar à noite, cor de petróleo com luzes no horizonte, confundindo com as estrelas que piscam. Luz fraca na rua de terra, solidão, anjo, bosque, estrela d’alva, barulho de roda de bicicleta, portão de ferro, vento nas folhas, grilo e cigarra cantando. Sapo, lagartixa, limo no muro, planta que dorme, volta no quarteirão, brinco de princesa, goiaba, girino, perereca, barata voadora, taco de madeira, móvel velho, rede, balanço… saudades… saudades… saudades… chuva… chuva… saudades…

A lua no cinema

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
– Amanheça, por favor!

Paulo Leminski