Fernando de Noronha – dia 3

A primeira coisa que fiz ao acordar foi me arrumar e correr na farmácia comprar um Ibuprofeno pra dor do capote do Sancho. Estava fechada, tomei um café na padaria e rumei a pé pra Vila dos Remédios, atrás do remédio. De lá peguei o ônibus para o Boldró, onde queria acompanhar a captura de tartarugas marinhas para monitoramento feita pelo Tamar. Cheguei tarde, confundi o horário e acabei perdendo. Agora só na segunda. Fiquei por lá curtindo a piscininha natural formada pela maré baixa. Logo a maré subiu e ficou perigoso.

Subi no mirante e fiquei curtindo a brisa e a paisagem até bater a fome. Comi um salgado no Tamar e fui embora pro meu quarto cochilar e aproveitar o ar condicionado. Às três voltei à Conceição onde nadei até o sol se por. Acho que não vai ser difícil me acostumar com essa vida.

Chegando em casa me esperava o jantar preparado pela vóinha, dona Geselda, minha vizinha. Comidinha boa demais. Primeira refeição decente em Noronha. Dormi satisfeita.

 

 

Fernando de Noronha – dia 2

Acordei cedo e às 8:40 estava no ponto de ônibus, rumo ao Boldró pra agendar meus passeios pelo Parque Marítimo. O céu estava um pouco nublado e ventava. Consegui agendar a trilha longa do Atalaia e o Boldró. Seguindo a orientação do guia do Parque, peguei outro ônibus para o Sueste. Lá contratei um guia que me mostrou várias tartarugas marinhas, grandonas, muitas lagostas, um tubarão, peixinhos multicoloridos. Lindo!

Me sustentei na base de barras de cereais, picolé e salgados. Lá pelas duas parti pro Sancho. Sempre de ônibus, desci errado e tive que pegar outro. Na trilha que leva até a escadinha que desce pra praia, conheci um moço de Santa Cecília, São Paulo, que veio pra um casamento e ficou mais dias pra conhecer a ilha. Gente boa, dividiu a água comigo e os flashs. Ele registrava tudo no celular, com vídeos. A primeira vez que estive aqui, a descida era via uma escadinha muito precária na fenda de uma rocha com um cabo de aço de guia. Agora tem uma trilha com deck de madeira e a escada é mais segura. A vista é deslumbrante. Fico na dúvida se o Sancho é mais bonita que White Haven beach nas Whitsunday Islands. Estão as duas ali, pau a pau. Nos instalamos sob uma árvore no canto direito. Várias aves marinhas mantém seus ninhos ali e nas pedras da falésia. Torci pra não cagarem na minha canga. Alternei mergulhos, caminhadas, selfies, papo com outros turistas, jacarés e um capote que me entortou o ombro esquerdo. Depois do capote, não aguentava mais de fome e o sol estava me fritando. Resolvi partir. Chegando lá em cima, fiz a trilha até o mirante do Morro dois irmãos, onde se vê à direita a Baía dos Porcos e à esquerda o Sancho. Resolvi esperar o sol se por para assistir de lá de cima. Pena que o celular não pega, fiquei com vontade de ouvir a música da entrada do Riacho Doce, é tão lindo tudo que merece uma trilha sonora. Acho que era Bethoven, não me lembro. A gente quase nunca olha pro céu ou vê o sol, a lua, as estrelas. Pois aqui faço questão de ver o sol se por e amanhã verei se levantar, se tudo der certo, na baía dos golfinhos. E a lua está ficando cheia, uma pena que não dá para ver estrelas, mas dá vontade de pedir pra apagarem a iluminação pública, porque não precisa. Voltei pra casa de carona, comum por aqui as pessoas te oferecerem carona do nada! Cheguei mais uma vez quebrada, faminta, dolorida, mas muito feliz. Parei na barraca de churros do vizinho e resolvi comprar um. Vi que tinha cachorro quente, foi minha janta. Conversando com o rapaz, ele me disse que sua vóinha fazia quentinhas (Coisas da língua portuguesa: a língua mais carinhosa do planeta, isso num tem em outras línguas. Esse uso do diminutivo me bota um sorriso no rosto). Vóinha veio conversar comigo. Ô meu Deus, as pessoas são muito boas, muito boas mesmo. A vóinha me disse que vai me preparar uma quentinha todo dia, “assim com um arrozinho com feijão pretinho, um peixinho, ou uma carninha, com um suco de acerola de meu quintal. Se tu quiser pode ser de laranja”. Ô meu Deus! ❤ Capotei na cama às 20h e tentei dormir, apesar do galo que cantava no meu ombro e na minha cabeça.

Fernando de Noronha – dia 1

Diferente da primeira vez em que estive aqui, a vila agora tem restaurantes, bares, lojinhas. Carros e motos circulam, não somente “bugres”. Nenhuma vaca ou cabra pastando pelas ruas. O avião é de carreira, não o Brasília não pressurizado. Bares com lounge tocando tecno impessoal, não o forró da banda Magníficos. Turistas franceses, não paulistas. Iluminação pública não estrelas.

Continua o mesmo o por do sol na praia da Conceição: ondas perfeitas, gaivotas gigantes mergulhando e pescando, o céu laranja, o barco de pesca. A água tão limpa, tão limpa, que dá pra ver os peixes nas ondas que se formam, as arraias no fundo se confundindo com a areia.

Também continua a mesma a pobreza dos nativos.

Saio do mar, meio enrolada na minha canga, e ainda molhada e pingando vou subindo uma escada, achando que estou saindo da praia. Na verdade estou passando pelo Bar do Meio. Pequenos nichos de deck de madeira com sofás e almofadas, parecidos com pequenas jaulas onde gringos com cara entediada me encaram num misto de espanto e curiosidade. Me sinto deslocada, mal dentro do meu próprio país no meio dos gringos. Chego no bar, bastante movimentado. Um italiano me mede e fica me encarando com cara de tarado. Acho que está me confundindo com uma puta. Encontro um banco para me enxugar, bater a areia e calçar uma sandália. Sinto fome, peço o cardápio pra uma moça que parece ser a gerente. Antipática, com um sotaque estrangeiro, me diz que só tem uma mesa livre. Vejo várias. Um sanduíche natural custa R$45,00!!!! É o item mais barato. Saio dali enojada e revoltada. “Gringaiada do caramba, vai gentrificar a casa do caralho!”. Vou andando e no caminho um casal me oferece carona de “bugre”. Aceito. Estão em lua-de-mel. Alugaram o bugre por dois dias a R$200,00 a diária mais a gasolina. Desço no centro da Vila dos Remédios, compro um açaí de 600ml por R$22,00. Volto a pé. 

Passo no mercado, água só em garrafas de 500ml a R$2,60. Chego no meu quarto exausta, faminta. Contabilizo os ralados nos joelhos e braços. Foram tantos jacarés que peguei! Meus olhos estão pesados, minha pele ardida. Não passei protetor. Abro um pacote de bolacha que trouxe de Mogi. Essa é minha janta. Estou capotando…