Coração selvagem

Não se aproxime do meu coração,

meu coração corre descalço e nu

a galope

em pelo

com raiva

brigando

orgulhoso

duro como pedra

inquebrável

grande e sangrento

incólume

Ele derrama de vazio

se enche de nada

ele bate com força

cada vez mais forte

descompassado

aguardando o grande dia de parar.

O meu coração selvagem.

Love, sweet love

What the world needs now is love, sweet love
It’s the only thing that there’s just too little of
What the world needs now is love, sweet love,
No not just for some but for everyone.
Burt F. Bacharach / Hal David

A dor e a delícia

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Caetano Veloso

A auto estima aqui é baixa, apesar de ter uma voz no ouvido soprando o quanto eu sou boa, a que ganha é a voz de quem ouviu poucos elogios vindo daqueles que mais importam, a voz exigente e nunca contente, a voz perfeccionista. Eu carrasca de mim mesma.

Aprendi sozinha a amar meu corpo, mesmo sendo perfeito. Não perfeito nos moldes das revistas, dos olhares obcecados com as curvas perfeitas e generosas. Perfeito em sua função de me levar aonde quero, de expressar meus sentimentos, de ser minha mídia nesse mundo de ilusão.

Amo meus valores e não tenho dúvidas quanto a isso. Essa clareza tive a sorte de atingir logo na vida.

Agora busco amar a minha forma de ser. A minha forma errada, imperfeita, às vezes incoerente, às vezes insana, mas sempre sempre quente e verdadeira, transparente e direta. Às vezes branda, sempre rígida, na maioria das vezes alegre. Apaixonada e cheia de compaixão. Nem sempre justa, nem sempre prudente. Triste, inconformada, pessimista, mas sempre contraditoriamente esperançosa, humana.

Essa sou eu e eu preciso me amar apesar da dor de ser, porque ser também é um prazer.

Espero que a partida seja feliz e espero nunca mais voltar.

F. K.

Quando eu penso na Frida Kahlo, penso como o sofrimento dela foi produtivo e deu origem a uma obra linda e inspiradora. Isso me dava um alento, meu sofrimento poderia ter algum sentido, mas eu não tenho essa força. Meu sofrimento só gera mais sofrimento. É um laço infinito. E ao mesmo tempo é um sofrimento pequeno em comparação com outros sofrimentos e eu sou ridícula, eu não sou nada e meu sofrimento é insignificante, eu sou insignificante. Eu sou tão valiosa quanto uma formiga que eu esmago com meus dedos como quem limpa uma sujeira. Eu não sei o que estou fazendo aqui e nem porquê. Não quero saber na verdade, não me interessa mais. Só quero saber quando eu vou embora…