Coração selvagem

Não se aproxime do meu coração,

meu coração corre descalço e nu

a galope

em pelo

com raiva

brigando

orgulhoso

duro como pedra

inquebrável

grande e sangrento

incólume

Ele derrama de vazio

se enche de nada

ele bate com força

cada vez mais forte

descompassado

aguardando o grande dia de parar.

O meu coração selvagem.

A dor e a delícia

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Caetano Veloso

A auto estima aqui é baixa, apesar de ter uma voz no ouvido soprando o quanto eu sou boa, a que ganha é a voz de quem ouviu poucos elogios vindo daqueles que mais importam, a voz exigente e nunca contente, a voz perfeccionista. Eu carrasca de mim mesma.

Aprendi sozinha a amar meu corpo, mesmo sendo perfeito. Não perfeito nos moldes das revistas, dos olhares obcecados com as curvas perfeitas e generosas. Perfeito em sua função de me levar aonde quero, de expressar meus sentimentos, de ser minha mídia nesse mundo de ilusão.

Amo meus valores e não tenho dúvidas quanto a isso. Essa clareza tive a sorte de atingir logo na vida.

Agora busco amar a minha forma de ser. A minha forma errada, imperfeita, às vezes incoerente, às vezes insana, mas sempre sempre quente e verdadeira, transparente e direta. Às vezes branda, sempre rígida, na maioria das vezes alegre. Apaixonada e cheia de compaixão. Nem sempre justa, nem sempre prudente. Triste, inconformada, pessimista, mas sempre contraditoriamente esperançosa, humana.

Essa sou eu e eu preciso me amar apesar da dor de ser, porque ser também é um prazer.

Espero que a partida seja feliz e espero nunca mais voltar.

F. K.

Quando eu penso na Frida Kahlo, penso como o sofrimento dela foi produtivo e deu origem a uma obra linda e inspiradora. Isso me dava um alento, meu sofrimento poderia ter algum sentido, mas eu não tenho essa força. Meu sofrimento só gera mais sofrimento. É um laço infinito. E ao mesmo tempo é um sofrimento pequeno em comparação com outros sofrimentos e eu sou ridícula, eu não sou nada e meu sofrimento é insignificante, eu sou insignificante. Eu sou tão valiosa quanto uma formiga que eu esmago com meus dedos como quem limpa uma sujeira. Eu não sei o que estou fazendo aqui e nem porquê. Não quero saber na verdade, não me interessa mais. Só quero saber quando eu vou embora…