Save the children 

A baby picture makes my heart melt. I cry for no good reason. Life is moving on so fast, I read or watch the news and they scare me. This right tide is so awful. Where are we going, my God? And I remember I don’t believe. In the back of my mind, a song that talks about love. I think of all the writers I love and I talk to them, no, I listen to them. They are mute. They don’t know about these horrors. I never thought we would live times like this. I felt safe when I read Anne Frank, I felt safe when I read A rosa do povo, I felt safe when I read books about war times. I don’t feel safe anymore. Maybe I was never safe, maybe the world is like this War and Peace. Maybe? Certainly is. In my selfish thoughts I think I’ll be gone, I’ll be fine. But then I think of the children, of my children, of any children. And I pray to a God I don’t believe: Please, please, God, please, save us from all the hate, help us! Life is so beautiful and good, nature is so beautiful and wonderful, please help us and please take care of the children. Amem!

Uma vela acesa

Completei 43 anos. Apesar de tudo, sou uma pessoa de sorte. Estou cercada de pessoas boas, ótimas amigas, parentes, família, primos e primas, pai, irmã, sobrinhos. E além de tudo, não tenho só uma mãe, tenho várias tias que me tratam com carinho de mãe, e que me mimam com guloseimas deliciosas, além de ter tido a Vó mais querida do mundo. Esse ano que passou, perdi algumas coisas, mas ganhei outras. Assim vou seguindo, cada vez mais certa que a resposta é o amor. Tenho medo do futuro, mas o que a vida quer da gente é coragem. Então sigamos em frente. O que eu mais desejo hoje é que o mundo seja mais justo, principalmente com as mulheres, com as crianças, com os idosos, com os negros, com os moradores de rua, com os doentes mentais, com os presos, com os doentes, com os homossexuais, com os transsexuais e com os pobres. Penso no Haiti, penso no Sudão, penso na Nigéria, penso na América Latina toda, penso na África toda, penso nos EUA, penso na Síria, penso na Palestina, penso no Brasil, penso na China, penso no Japão, penso no México, penso na Grécia, penso na Coreia, penso em todos os países, penso nos homens, penso no mundo, penso na natureza, penso nos animais. Trago uma vela acesa no meu coração pra que minha sorte se espalhe por esse mundo. Amém.

Cheiro de mato

Quando abro a janela do apartamento bate um cheiro bom de mato, que me faz lembrar da infância. Eu queria voltar e ficar pra sempre parada nesse momento, sem futuro, sem passado, sem presente, sem tempo, sem medo, sem esperança, sem tudo, sem nada. Só a noite, o mato, o vento, eu criança.

Ricardo Vilela, 488

Eu lembro da rua e lembro da casa. Lembro que um dos primeiros caminhos a pé que aprendi a fazer sozinha era esse: sair de casa na rua Casarejos, no Mogilar e caminhar até pertinho da casa da Ana Clara, lá tinha uma passagem pra atravessar a linha do trem e dava na Manoel Caetano. A gente atravessava a linha correndo e num instantinho chegava na casa da vó. Se eu fechar os olhos, ainda ouço o rangido do portãozinho de ferro ao abrir, subo os degraus, e aperto a campainha, perto das colunas e da caixa de luz. Pééééééé. Tia Mi abre a porta, vestida numa daquelas batas compridas, me dá um pito porque apertei demais a campainha. O vô está sentado na espreguiçadeira, tomo a benção. Pela janela da sala entra um raio de sol onde vejo as partículas de pó brilharem. Entro correndo no quarto e a vó está sentada na máquina de costura, tomo a benção. Ela me diz que estou verde de fome, pra eu ir comer um pedaço de bolo lá na cozinha. O telefone preto toca, vou atender, aproveito pra pegar uns doces de leite no buffet, ah, o cheiro que batia quando abria aquela porta: um misto de mofo com chocolate em pó, sempre associo esse cheiro com coisa boa. “Catinha, vai molhar as plantinhas pra vovó!” “ah, vó!” fazia um muxoxo, mas lá ia eu molhar os mil e um vasos de plantas do corredor externo. Pegava a caneca de leite, com resto de nata. “Mistura com a água, que as plantinhas gostam.” Teorias da vó. Quando terminava a minha tarefa ia subir e descer as escadas dos quartos dos fundos, enquanto assistia o vô trabalhando na garagem. “Desce daí, menina, perigoso você cair”. Ia fuçar naquelas ferramentas do balcão. Olhava pra kombi verde, com esperanças que o vô deixasse eu entrar um pouquinho e brincar lá dentro. “Catinha, vem comer seu mingau, quer com chocolate?” Lá vinha a vó enxugando as mãos no avental na cintura, ajeitando os cabelinhos esvoaçando. Eu brincando entre as roupas de cama no varal, entre as varas de bambu. “Com chocolate”. A Cíntia gostava de tomar chá de hortelã daquela jardineira que ficava no canto. Gostava de subir na tampa do poço do quintal. “É verdade que tem água ali dentro?” “Vamos brincar de esconde-esconde no quarto dos fundos?” E a vida era assim…

Nada será como antes

Eu já estou com o pé nessa estrada,
qualquer dia a gente se vê.
Sei que nada será como antes,
amanhã…
Milton Nascimento / Ronaldo Bastos

Hoje, depois de quase cinco anos, estou deixando a sociedade do Hacklab. Foram quase cinco anos de algumas conquistas pessoais, muitos trabalhos bacanas, muitas risadas, muitas cervejas, muita piranha, muito pebol, muito código, algumas lágrimas e desavenças, mas acima de tudo, muito aprendizado.

No Hacklab aprendi (sqn) a usar Linux, aprendi o que é compartilhar conhecimento de verdade, o que é o companheirismo masculino, o valor de ser mais tolerante com pessoas diferentes, aprendi generosidade.

Aprendi que ter um sonho bonito não basta, a realidade é sempre diferente e vai se transformando e não necessariamente o resultado é bom ou ruim, o fim não importa, o que importa é o processo.

Aprendi que o ter razão é superestimado. Todo mundo passa por um processo de aprendizado e nem sempre todos chegam na mesma verdade, na mesma razão. A minha experiência nem sempre serve ao outro, as pessoas precisam vivenciar os fatos na pele para aprender.

Aprendi que confiança não se ganha no grito e nem na raça, confiança também depende da boa vontade de quem deposita, de empatia e de total ausência de preconceitos ou pré-julgamentos em relação ao receptor.

Aprendi que equilíbrio de gênero não implica em igualdade de gênero, precisa haver equilíbrio de poder antes de mais nada. Política de cotas é importante, mas é só uma parte.

Aprendi que consenso é extremamente difícil, extenuante. Sem um caminho claro, bem traçado e um objetivo bem definido, muitos se vencem pelo cansaço e se perdem rodando em círculos, e é fácil apelar para alternativas verticais, onde sem querer e cheios de boas intenções, pisamos nas cabeças das pessoas sem piedade.

Aprendi também muito sobre mim mesma, aprendi que sou capaz de cair e levantar, aprendi a reconhecer meus (muitos) erros e que não posso mudar a essência de quem sou, mas posso transformar minha essência em algo melhor, ou pior. É preciso estar atento e forte.

Aprendi a separar o que é meu e a não carregar o que é do outro.

E por isso tudo e por outras coisas que não me lembrei de listar aqui, digo: obrigada, Hacklab! Vou sentir saudades. Nada será como antes…

 

Se esta rua fosse minha…

Verão a todo vapor, literalmente. Uma chuva ameaçou cair. Som abafado de trovões e raios piscando aqui e ali no horizonte, mas nada da danada vir refrescar, ao invés, o ar parado e viscoso. Vez em quando sopra um ventinho fresco que deixa um gostinho de quero mais e traz um cheiro bom de mato e terra molhada. Vozes de crianças brincando na rua. Eu também brinco com elas, brincamos de roda sob a luz fraca do poste na frente da casa rosa, janelas e portas verdes, com cortinas de xita. “Se esta rua, se esta rua fosse minha…” Meus tios planejam pescarias na varanda. Meu avô sentado em sua espreguiçadeira fuma um cigarro de palha. Na mesinha ao lado, queima uma espiral pra espantar os pernilongos sem sucesso. Lá dentro uma tia tira a mesa do café da tarde enquanto as outras continuam conversando. Um choro de bebê que não dorme por causa do calor. A vó chega na porta de vidro da sala, com uma mão na cintura e a outra abanando um leque de palha. Ouço vir da garagem o som de risadas dos meus primos. Do som do carro do tio Caetano ouço os afro-sambas de Toquinho e Vinícius. Meus primos menores brincam de pega-pega no corredor externo. Eu, minha irmã e minha prima brincamos dentro da combi verde do vô. Na sala alguém tenta reconhecer as pessoas numa foto em branco-e-preto da família, tirada em outra temporada na Maranduba. Alguém escolhe um livro da prateleira. O caso dos dez negrinhos, Os elefantes não esquecem, O mameluco, Seleções de Readers Digest. Observo uma gravura que mostra dois homens a cavalo vendo as Cataratas do Iguaçu. Dona Odete, Seu Manoel e Adriana, todos de banho tomado aparecem na varanda pra um dedinho de prosa. Bate um cheiro de goiaba. Um morcego dá um razante. Vez em quando bate a luz de um farol de carro lá na pista. Alguém me mostra a estrela D’alva no céu estrelado. As cigarras cantam sem parar. Um vaga-lume diverte a criançada. O cri-cri dos grilos parecem ditar o ritmo do piscar das estrelas no céu. A lagartixa no cantinho da parede sorrateira come um pernilongo. Cheiro de dama-da-noite. “Se esta rua, se esta rua fosse minha”, eu mandava ela voltar no tempo.