Mistério do planeta

Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso,
Jogando meu corpo no mundo,
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas,
Passado, presente,
Participo sendo o mistério do planeta

Antonio Pires, Luis Galvao

Hoje fiz um tur chamado Haunted Walk of Toronto. É um passeio noturno pelo centro histórico onde a guia para em alguns pontos para contar casos de assombração ocorridos ali. Lá pelas tantas, um morador de rua bêbado interrompe a moça e pede licença para falar. Os outros turistas fizeram um silêncio constrangido e contrariado. Achei que ele merecia mais consideração e respondi “Sim, claro!” Ele então conta uma história que envolve a mãe dele. Não entendi muito bem, mas apesar de bêbado, foi educado e finalizou pedindo alguns centavos. Peguei a primeira moeda que senti na carteira e dei. Era uma moeda de dois dólares. Ele agradeceu e se foi.

………………..

O passeio acabou às 9h30 da noite e eu ainda tinha uma caminhada de 20 minutos até o ponto do bonde (“streetcar” para os locais). Quando subi no bonde notei que não tinha moedas suficientes. O sistema só aceita moedas! Fiquei sem graça e me expliquei pro motorista. Ele era latino, português? Talvez, mas ele apenas me disse: “coloque as moedas que você tem e tudo bem!” Respirei aliviada e segui sendo “um moleque do Brasil, que peço e dou esmolas”, ou apenas o mistério do planeta! (Agora bota no último volume o solo de guitarra do Pepeu!)

Rainny day at Toronto

The rain and the cold are telling me it’s time to go home. I’m running out of cash and I can’t withdraw money with my Credit Card that isn’t accepted in most places. Spotify won’t let me connect, I can’t listen to my music. I miss home now.

I planned to do cool things today, take the ferry, see Ontario lake, stroll in a park… Instead, here I am at a Starbucks eating the same thing I eat in São Paulo. I’m not complaining! It would be a real sin otherwise! This is a luxury most people in this globalized world can’t afford. And I’m privileged! 

On the same table as me, an old man with some sort of mental condition. From time to time he stares at me and gives a half smile. He’s enjoying the free wifi. This makes me think of Brazil and how my country is so rough with the disadvantaged. That breaks my heart. News down there are so dark… I want to go back home, but I don’t want to go back to that reality. When are we ever becoming a fairer country? One that corresponds to the greatness of our music, our nature and our poor brave fighter people?

Canada, I envy you! Vancouver, Montreal, Toronto, dream cities, show me your sins, please! Make me believe Brazil has a chance. Toronto rain, wash these blues away!

Save the children 

A baby picture makes my heart melt. I cry for no good reason. Life is moving on so fast, I read or watch the news and they scare me. This right tide is so awful. Where are we going, my God? And I remember I don’t believe. In the back of my mind, a song that talks about love. I think of all the writers I love and I talk to them, no, I listen to them. They are mute. They don’t know about these horrors. I never thought we would live times like this. I felt safe when I read Anne Frank, I felt safe when I read A rosa do povo, I felt safe when I read books about war times. I don’t feel safe anymore. Maybe I was never safe, maybe the world is like this War and Peace. Maybe? Certainly is. In my selfish thoughts I think I’ll be gone, I’ll be fine. But then I think of the children, of my children, of any children. And I pray to a God I don’t believe: Please, please, God, please, save us from all the hate, help us! Life is so beautiful and good, nature is so beautiful and wonderful, please help us and please take care of the children. Amem!