Eu subestimei o quanto eu amava minha mãe. Quando o médico me falou que não havia mais esperança dela melhorar, eu me desesperei. E logo em seguida veio a dengue, que me derrubou fisicamente. Meu coração já estava partido. Parecia impossível sair da cama. Falei pra terapeuta entre lágrimas: “não quero mais viver”. Esse peso na alma anda comigo desde então. Toda vez que fico sozinha, dirigindo, antes de dormir, ele volta com alguma lembrança qualquer que me faz pensar nela e eu choro, choro como se o médico estivesse me falando de novo que não havia mais esperança. Eu choro doído, sentido com as lágrimas que “espirram dos olhos”, não escorrem. A D. Lúcia, minha primeira professora foi quem usou essa expressão quando eu chorei por ter feito xixi na sala de aula. Meus óculos ficam sujos, com marcas das gotas.
Eu tenho muita pena da minha mãe, ela não merecia isso. Alzheimer. Ela fazia palavras cruzadas dia e noite quando o médico disse que ela estava começando a ter sintomas de demência. Eu nunca agi à altura do meu amor por você mãe, sempre brigando com você, te chamando de velha chata. Sua vida não foi fácil, e eu não te via, não via o papai, só via a mim mesma. Como a vó tinha razão!! Ah vó, minha vozinha, quanta saudade. Quanta sabedoria!
Mãezinha, meu amor, meu bebê!! Falam tanto de amor de mãe, bobagem! Vocês não sabem o que é o amor de filha! Vocês não sabem o que é o amor de quem segura aquelas mãozinhas tão pequenas e delicadas, mãos que tocaram piano. Vocês não sabem o que é abraçar uma mãezinha porque ela está chorando assustada depois de fazer uma lavagem intestinal no pronto socorro da Sta Casa. Vocês não sabem o que é esse amor, o que é essa vontade de desfazer todo o mal, todo o medo, todo o horror que é não saber mais onde se está, quem se é, o que está acontecendo, não ter certeza de nada, nada, a única certeza é a ausência da mãe, da irmã! Oh doença ingrata!! Se eu pudesse, mãezinha, eu te pegava no colo, eu te ninava, eu voltava no tempo pra te tratar com mais amor, com o amor que você merecia e eu só te dei quando você não sabia mais quem eu era.
