Ode ao meu corpo

Olhando no espelho, nua, hoje eu me amei. Amei meu corpo, magro e estranho, de seios pequenos e ossos saltados. De quadris estreitos que nunca vão carregar uma cria. Amei minhas pernas fortes e grossas, que me impulsionam pro fundo do mar atrás de peixinhos, tartarugas, mas que também me impulsionam para o alto das montanhas, da serra de São José, do morro do Pai Inácio, do pico do Itacolomi. Amei meus braços fortes e longos que me ajudam a nadar dois quilômetros em uma hora, que carregaram meus sobrinhos e também meu pai no colo. Amei minhas mãos de dedos compridos que desenham com a habilidade dos meus ancestrais no Japão. Amei meus olhos escuros e levemente puxados, mestiços. Minhas olheiras escuras, meus lábios grossos. Amei meus cabelos escuros e volumosos. Amei minhas orelhas pequenas e meu pescoço grosso. Amei meus dentes separados, grandes. Amei até minha barriguinha que acumula a pouca gordura que trago no corpo. Amei minhas cicatrizes, até essa que atravessa minha barriga longitudinalmente de cima a baixo como um foguete. Essa que acumula quelóide e repuxa minha pele, mas que lembra as noites sem sono de meus pais preocupados se eu sobreviveria ou não. Por quanto tempo mais vou ter esse corpo? Esse corpo que me custou tanto para amar e aceitar? Esse corpo magrelo, pau de virar tripa como minha mãe me chamava. Muita gente me confundiu com um menino. E já com quase trinta me deram treze anos. As amigas me olham com inveja porque tudo que eu visto me serve. Mentira. Nunca tive uma única calça jeans que não apertasse nas coxas e sobrasse na bunda. Um único sutiã que me servisse, que não sobrasse nos seios e apertasse nas costas. O único padrão que existe é reprimir as mulheres pra que elas não amem a si mesmas e seus corpos e achem que seus corpos servem para agradar aos desejos sexuais dos homens. O único padrão é satisfazer o gosto masculino. Até que finalmente resolvi que não vou usar mais sutiã, porque o único motivo pra usar é pra evitar o olhar predador dos homens. Ninguém gosta de peitos pequenos, mas mesmo assim os putos não me deixam em paz se meus mamilos se arrepiam por baixo da blusa. Um dia o tempo vai me dar outro corpo, outro corpo que eu já não vou controlar e a vida é curta demais pra eu não amar meu corpo hoje, pra eu não me amar. Por isso hoje eu olho pra minha imagem e me abraço com amor. Espelho, espelho meu, não existe ninguém nem mais linda e nem mais feia do que eu!