Naqueles dias

Hoje eu tô naqueles dias, naqueles dias que acordo atrasada, já caindo da cama e ao mesmo tempo já trabalhando, com dor aguda no útero, que tem o exato tamanho de um punho fechado, um murro da natureza dentro de mim. Chorando por qualquer motivo besta, com o coração batendo por baixo da pele, pulsando nas minhas cicatrizes, minhas tatuagens involuntárias. Um rasgo de cima a baixo e outro de lado a lado. A pele repuxada, a gordura esticada, sem tato pra sempre na barriga. Um rasgo no umbigo e outros dois no lado direito. Um rasgo no olho esquerdo. Gargalhando descontroladamente. Contorcendo de cólicas, rolando na cama. Sangrando, sangue escuro, preto, vermelho, na privada, na calcinha, nas pernas. Uivo pro sol e choro pra lua. “Eu ainda sou uma mulher!” – revido pro Tempo. Tempo, esse eterno homem maldito que transforma mulheres em velhas tristes, rejeitadas e assexuadas. “Puto, maldito!” Hoje eu acordei bicho-mulher.

Corsário

Meu coração tropical está coberto de neve,
mas ferve em seu cofre gelado,
a voz vibra e a mão escreve mar

Aldir Blanc / João Bosco

Lua Adversa

Tenho fases, como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua…)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles

Fernando de Noronha – dia 4

Acordei e fui comprar água. Água na ilha é cara. Não se encontram garrafas de mais de 600ml nos mercados nem galões. A água encanada é ruim, é salobra. O jeito foi comprar duas dúzias de garrafas de 600ml, total mais de R$57,00!!

Depois de deixar as garrafas em meu quarto, fui pro ponto de ônibus e me encontrei com um casal que conheci no pôr-do-sol da baía do Sancho passamos o dia juntos. Fomos para o Porto com intenção de mergulhar. Acabamos pagando um guia para levar a gente até o naufrágio do barco grego, que dizem está lá há mais de 100 anos. Por R$40,00 e mais R$50,00 de fotos com uma GoPro. No fim acho que a gente não precisava do guia, é tudo ali muito perto, mas as fotos talvez tenham valido a pena. Ainda não vi pois salvaram num CD e não tenho nenhum leitor. Me diverti bastante vendo peixinhos, tubarão, tartarugas e arraias e o naufrágio que por si só é interessante.

De lá fomos olhar o museu do tubarão, que confesso não me interessou. O melhor de lá foi o banheiro limpo e um suco de kiwi muito gostoso que tomei. Seguimos para a Vila dos Remédios onde almoçamos no restaurante por kilo mais popular e talvez um dos mais baratos e de lá fomos para a praia da Conceição onde ficamos até o sol se por.

Chegando em casa, minha quentinha já me esperava. Dona Geselda, o esposo e o filho ficaram por ali conversando comigo enquanto eu jantava. Apesar da vida nada fácil que levam por lá, sem um hospital, muitas vezes sem água, preferem morar lá do que em Recife por conta da tranquilidade. “Aqui a gente sai de casa e larga tudo aberto e destrancado. Nada acontece.” Todos se conhecem pelo nome, se não, pelo menos de vista. Da varanda cumprimentam quase todos que passam na rua. Dona Geselda tem no quintal um pequeno pomar. Tem goiabeira, acerola, bananeira, mangueira. Todas as noites me preparava uma bela jarra de suco pra acompanhar o jantar. Me arrependi de não tirar nenhuma foto deles e da casa.

Fernando de Noronha – dia 3

A primeira coisa que fiz ao acordar foi me arrumar e correr na farmácia comprar um Ibuprofeno pra dor do capote do Sancho. Estava fechada, tomei um café na padaria e rumei a pé pra Vila dos Remédios, atrás do remédio. De lá peguei o ônibus para o Boldró, onde queria acompanhar a captura de tartarugas marinhas para monitoramento feita pelo Tamar. Cheguei tarde, confundi o horário e acabei perdendo. Agora só na segunda. Fiquei por lá curtindo a piscininha natural formada pela maré baixa. Logo a maré subiu e ficou perigoso.

Subi no mirante e fiquei curtindo a brisa e a paisagem até bater a fome. Comi um salgado no Tamar e fui embora pro meu quarto cochilar e aproveitar o ar condicionado. Às três voltei à Conceição onde nadei até o sol se por. Acho que não vai ser difícil me acostumar com essa vida.

Chegando em casa me esperava o jantar preparado pela vóinha, dona Geselda, minha vizinha. Comidinha boa demais. Primeira refeição decente em Noronha. Dormi satisfeita.