Nada será como antes…

Resistindo na boca da noite um gosto de sol…

Em casa desde quando? Não sei mais. Só sei que dia 9 de março fui mandada embora e foi quando a quarentena começou, mas naquela segunda-feira já fazia alguns dias que eu não saía de casa então já faz bem mais que dois meses!

Os dias estão se repetindo. Tudo igual, só mudam os números dos mortos.

Estou trabalhando voluntariamente num projeto chamado seguraaonda.com.br que é um guia de iniciativas de combate ao Corona vírus.

Comecei atendendo a um chamado do Rodrigo Savazoni pelo Facebook. Naquele momento ainda se chamava Frena la Curva Brasil, pois é derivado de um projeto espanhol que se expandiu para a América Latina. Quando o Rodrigo pediu sugestões pra uma versão brasileira, sugeri Segura a Onda. Me lembro do exato momento: estava na rua com minha prima Helô, na esquina da Padre João com a Barão de Jaceguay. No início era um grupo do Telegram que existe ainda. Depois movemos pro Slack por minha sugestão. Eu estava andando e lendo mensagens no celular.

Não sei porque certas lembranças bobas ficam guardadas e outras mais importantes não.

Aquele foi um dos últimos dias que saí. Depois saí algumas vezes pra fazer compras até que no dia 7 de abril tive minha consulta com a Dra Pamela, minha psiquiatra e minha rotina mudou. Naquele dia a doutora me advertiu que não era seguro manter quatro cuidadoras para meus pais. Isso implicou na dispensa de três delas. Eu fiquei à noite e a Maria durante o dia pois ela é a única das quatro que poderia se isolar de verdade.

Naquele dia tive um chilique, a última coisa que eu queria era ter que voltar a cuidar dos meus pais. No fim tive que me conformar e estamos seguindo essa rotina sem sustos.

Não sei porque estou escrevendo como se fosse pra alguém e não eu mesma. Fica assim mesmo. É de madrugada. Acordei pra acompanhar o papai no banheiro. Cobri ele e voltei para o quarto e comecei esse site.

Faz uma hora e meia agora. São 3 e meia.

Hoje, ou melhor, ontem, domingo passei a manhã com os velhinhos. Conversei um tempão com a Maria. Depois fui tomar sol com os velhinhos, cortei as unhas das mãos da mamãe e dos pés do papai. Minhas tias passaram de carro aqui pra uma “visita”. Abri o portão automático da garagem e conversamos dali da beira da calçada. Elas de máscara dentro do carro. Almocei com os velhinhos e depois fui pra minha casa.

Pra variar, chorei. Conversei com a Helô no whatsapp. E depois esse dia de sol me fez sentir uma tristeza e chorei, um choro sem vontade. E antes que eu me afogasse nele pulei e fui tomar banho. Lavei os cabelos e voltei para o quarto, deitei nua na cama e comecei a pensar no Bonzinho, meu crush do OkCupid.

Me masturbei pensando nele. Gozei e aproveitei a descarga de sei lá qual substância que o prazer produz no sangue, enfiei uma roupa, cortei o molde de máscara no pano e voltei para os velhinhos.

Tomamos lanche e como todos os dias perguntei pro papai: “O que que nós vamos ver hoje?”

A resposta invariavelmente é “Não sei”. Escolhi um documentário do Chico Buarque no Prime. A mamãe: “Olha o Chicão!” Porque o aumentativo? Não sei.

A Cíntia ligou via Messenger, conversamos e depois assistimos mais um pouco e viemos deitar. Antes das dez já estava na cama.

A notícia de hoje é que a Polícia Federal avisou o bosta sobre a investigação da rachadinha do Flávio Bosta. Estão falando em cassar a candidatura bosta+mourão. Que sonho! Duvido que vire. Continuamos à deriva.

As secretarias estaduais de Saúde confirmam no país 240.991 casos do novo coronavírus (Sars-CoV-2), com 16.122 mortes.

G1

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