Meus assuntos

Esse canalha roubou nossas perspectivas. Não podemos planejar nada. Não podemos pensar no amanhã como algo possível.

A realidade está insuportável. Não pode ser assim.

Não tem um dia que eu não chore. É um pesadelo. Imagino com horror o que se passa com a Síria e o seu povo. Uma guerra interminável. Sinto muito medo desse pesadelo não acabar nunca.

Sinto muito a falta do contato com a natureza, fico imaginando a vida dessas pessoas nos acampamentos, sem nunca mais poder voltar aos lugares que elas amavam. Muito, muito triste.

Acho que minha mocidade está se acabando sem eu poder fazer o que eu gostaria de ter feito. Como perdi tempo na minha vida. Como me fez falta uma pessoa pra me ajudar a sair do buraco em que me prendi e que me prendeu por tanto tempo.

Não que eu não ache ser possível ter uma vida boa com qualidade, apesar da idade e das limitações físicas inevitáveis, só que não me parece que haverá espaço pra isso.

O livro do Amos Oz, A tale of love and darkness me vem à mente. Entendo perfeitamente a mãe dele. Perder tudo o que se tem.

Eu não suportaria tanta dor, tanta perda também.

Acho que é como envelhecer. É como meu pai se sente. Tudo o que fazia parte do seu mundo não existe mais, ou então é tão irreconhecível que é como não existir mais.

E essa bosta de situação só agrava esse sentimento de não pertencer.

Meu sentimento é de muita revolta e ódio por esse homem, esse lixo, esse chorume.

E será que existirá justiça??

É por isso que sinto tão forte a batucada do candomblé no xirê do Ilu: Xangô e todos os orixás é um querer muito forte.

Mas é um desejo que não é saciado. Acho que a resposta é um vazio monumental. Ou eu não escuto.

Ou a resposta não me agrada.

Se não for agora, então não quero. Me viro de costas pros Orixás e pros deuses. Fodam-se todos vocês!

eu ontem tive a impressão

que deus quis falar comigo

não lhe dei ouvidos

quem sou eu pra falar com deus?

ele que cuide dos seus assuntos

eu cuido dos meus

Paulo Leminski

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