Minhas Heroínas – Katherine Mansfield

Depois que eu publiquei o post anterior, começaram a aparecer na publicidade do Google uns anúncios de rehab. Eu demorei um pouco prá sacar porque, mas depois de matutar um pouquinho percebi que era por causa da palavra heroína no título do post. Dei umas boas risadas e decidi remover aquele coisa daqui, não sei se é incompetência minha em administrá-la, mas como a audiência aqui é nula, não tinha sentido mais manter aquele mico com anúncios absurdos. De agora em diante, só vou colocar banners para campanhas e causas que apóio. Fica mais honesto. Dito isso e sem o risco de encaminhar meus leitores (?) para uma reabilitação, vou falar sobre mais uma das minhas heroínas: Katherine Mansfield.

Katherine Mansfield

O primeiro livro de Katherine que li foi Felicidade e outros contos, da editora Revan, comprado em uma liquidação de livros da única livraria que existia no centro de Mogi e que iria fechar suas portas. Os livros estavam quase sendo dados, amontoados sobre uma mesa, sem nenhuma ordem ou critério, vendidos a cinco reais ou menos. Os preços me atraíram e comecei a revirar a montoeira de livros para ver se encontrava alguma coisa decente no meio de vários livros espíritas e de auto-ajuda. Dei sorte, além do livro de Katherine, achei uma biografia de Clarice Lispector, Clarice – Uma vida que se conta de Nádia Battella Gotlib, recheada de fotos e trechos de cartas, e a Trilogia Tebana de Sófocles, livro que reune as peças Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona (geralmente não seria o tipo de escolha que eu faria, mas por aquele preço, achei que o Sófocles, coitado, merecia ser resgatado daquela companhia indigna e vir morar em minha estante em companhia mais agradável). Na época não conhecia Katherine, fui atraída pela capa, que mostra a gravura de uma cena belle époque, uma mulher dentro de um bonde. Dei uma olhada no interior e na contra-capa. As referências eram ótimas e havia a seguinte frase atribuída à Virginia Woolf: “eu tinha ciúme do que ela escrevia”, que acabou me convencendo.

Katherine nasceu em 14 de outubro de 1888, em Wellington, na Nova Zelândia. Aos quinze anos mudou-se para a Inglaterra para estudar. Quando completou dezoito anos voltou para Wellington e se iniciou na literatura. Aos vinte conseguiu que seu pai, muito rico, bancasse seu retorno à Londres, nunca mais retornando à Nova Zelândia.

De volta à Londres, entregou-se a uma vida boêmia e bissexual. Inexplicavelmente, casou-se e separou-se de seu professor de canto George Charles Bowden no mesmo dia, apesar de já estar grávida de Garnet Trowell, irmão de um amigo. Essa notícia fez sua mãe levá-la até a Alemanha, onde ela sofreu um aborto e começou a apresentar os primeiros sintomas de uma tuberculose, que mais tarde a matou ainda muito jovem, com apenas trinta e quatro anos.

Foi amiga de outros grande escritores, como D. H. Lawrence e Virginia Woolf, num período em que sofreu de depressão depois da morte de seu irmão mais novo na Primeira Guerra Mundial. Escreveu vários contos e poemas, a maioria só foi publicada após sua morte pelo seu marido, John Murry.

Os temas de seus contos são aparentemente corriqueiros, um canário, lembranças da infância, mas a sua sensibilidade para a situação submissa e inferiorizada da mulher perante à sociedade refletem a sua indignação e seu posicionamento feminista e à frente de seu tempo.

O conto Bliss (Felicidade) relata como em um mesmo dia a personagem central desperta da frivolidade de sua vida, de aparente felicidade, ao descobrir sua própria sexualidade e a traição de seu marido. Finalizado com a pergunta da personagem: “E agora, o que vai acontecer?”, Katherine nos deixa livres para decidir o final, porém deixa a sensação que a solução é apenas uma: a liberação feminina.

Citações de Katherine

Risque, risque qualquer coisa! Não se importe mais com as opiniões dos outros, com suas vozes. Faça a coisa mais difícil no mundo para você. Aja por si mesmo. Encare a verdade.

Se nós pudéssemos mudar nossa atitude, nós não apenas veríamos a vida de forma  diferente, mas a própria vida se tornaria diferente.

Eu quero ao entender eu mesma, entender os outros. Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar.

Fontes bibliográficas

Katherine Mansfield, Felicidade e outros contos (Editora Revan, 1991) – nota biográfica.
Katherine Mansfield, Contos (editora Cosac Naify, 2005) – apêndice.
Adriana de Freitas Gomes, Uma Leitura de “Bliss”, de Katherine Mansfield – “A Vida como Origem” (http://www.criticaecompanhia.com).

Textos de Katherine na internet

New Zealand Eletronic Text Center

7 comentários sobre “Minhas Heroínas – Katherine Mansfield

  1. Ótima apresentação, Cátia

    Se a primeira heroína é assim “calminha”, imagino as próximas…

    [ ]s do Freitas
    Que acha esse papo de liberação feminina coisa do século passado, mesmo

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  2. Olá Cátia.

    Passei aqui por curiosidade, vi que você está envolvida nas traduções para português. Parabéns pelo esforço. Achei que tinha um problema com a tradução da versão 2.6.5, porque apareciam os cabeçalhos HTTP com as informações na página, mas percebi logo que o problema era com o tema que adaptei…

    Estou planejando a migração do blog hoje mesmo para a 2.7, mas vou com cautela…

    Um forte abraço!
    Phil

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  3. Bravo pelo blog-portfolio, pela super atuação que tem no worpress br, ( uma honra para a ala feminina, tão rara nesta área)e pela bem escrita e pesquisada categoria ” minhas heroínas” ..aguardo the next!
    Avante !

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  4. Não sei se você vai ler isto mas olha só os encontros.
    Tô lendo o Clarice, (vírgula).Impressionante.
    Me quedei na parte dela empregada do DIP, Agência Nacional. É que sou da EBN-EBC-Rádio Nacional.
    E onde está o nosso encontro?
    Na livraria de MOGI (?)
    Tudo porque ao lado do livro da KL-Bliss-Felicidade você comprou um da Clarice Lispector.
    Pois você sabia que, no primeiro salário que ela recebeu na Agência Nacional, ela correu e comprou o livro da Katherine Mansfield (lógico que na tradução do Érico que a Cristina ainda não existia).
    Ah… vou visitar melhor este seu blog da paz/ Abss

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  5. Inspirador… e… Apesar de parecer coisa do seculo passado, as mulheres ainda recebem significativamente menos do que os homens, tem uma representação politica feminina pifia (cerca de 8%), quase metade das crianças no Brasil são criadas pela mãe (IBGE e nem sempre com ajuda do pai), a violencia contra a mulher ainda é triste e trabalho de casa ainda é bem pouco valorizado e um problema principalmente feminino… poderia continuar, mas é só para se ter uma ideia deste nosso ‘avançado’ seculo 21…. Obrigada pelo blog achei-o por acaso e me inspirou a conhecer melhor estas escritoras…

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  6. Considero-a fascinante!
    Todo o meu Trabalho de Conclusão de Curso girou em torno do processo criativo desta extraordinária mulher.
    Seus registros pessoais chegam a ser tão poéticos quanto os seus contos. Katherine Mansfield com certeza foi um marco na ficção curta inglesa!

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